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  • Assim como qualquer empresa que investe em tecnologia, as que lidam com o mercado jurídico também se beneficiam com inúmeras vantagens.
  • Embora esteja no seu momento inicial, as métricas do mercado mostram que ainda há muito o que se explorar no mercado jurídico brasileiro.
  • As propostas que envolvem a ideia de startups usam da tecnologia para reformular e repensar toda uma cadeia ou ciclo de trabalho já organizados nos métodos tradicionais.

Um estudo divulgado pelo Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação,identificou que os pequenos escritórios de advocacia do país resistem em investir em tecnologia, visto que uma pequena proporção desses empreendimentos trabalham com a gestão de conhecimento.

Porém, o cenário vem mudando graças a expansão das Lawtechs, empresas que oferecem serviços baseados em ferramentas que aplicam inteligência artificial, análise de dados e algoritmos para tornar o trabalho no setor jurídico mais rápido e eficiente.

O mercado para essas empresas passa por um processo de expansão em escala global. No mercado externo observa-se tanto um crescimento no número de startups voltadas a área como do montante de investimento destinados a ela.

O que é Lawtech ?

Lawtech ou Legaltech, é um termo usado para denominar as startups que criam produtos ou serviços com aplicação no setor jurídico. Entre essas soluções incluem-se softwares usados para facilitar a rotina dos advogados, para o sistema jurídico ou até mesmo para a formação dos futuros profissionais da área.

Panorama do mercado

O investimento feito nas Lawtechs mostram que o mercado estava estagnado nos últimos anos. Isso é evidenciado em um report realizado pela Tracxn, onde é possível observar que, entre 2012 e 2017, o setor recebeu poucos investimentos.

Fatos que podem explicar a baixa de investimentos no setor podem estar relacionadas a falta de maturidade dessa indústria. Isso mostra que ela está passando por sua fase de crescimento e ainda deverá receber muitos investimentos.

A mudança começou a acontecer em 2018, onde o cenário já se mostrou completamente diferente. Neste ano, o investimento total foi cerca de 701 milhões de dólares, cerca de 41% a mais que no ano anterior e alcançou 1,2 bilhões de dólares em 2019.

Junto a isso, uma pesquisa realizada pela Thomson Reuters apontou que, entre 2012 e 2016, houve um aumento de 484% no número de novas tecnologias jurídicas registradas. E como dito por Charlotte Rushton, diretora-gerente das grandes e médias empresas da Thomson Reuters:

“A inovação tecnológica nos setores de serviços financeiros e profissionais cresceu rapidamente nos últimos anos e o setor jurídico está investindo para ficar à frente da curva”.

No cenário internacional, um dos países que mais se destaca no mercado das Lawtechs é o Reino Unido. Uma pesquisa feita pelo TheCityUK revela que em 2018 o país era responsável por 44% de todas as startups relacionadas ao setor jurídico na União Europeia.

Sobre os resultados da pesquisa, Gary Campkin, diretor administrativo de relações externas e questões estratégicas da TheCityUK citou:

“Eles mostram que, embora os pontos fortes tradicionais do setor jurídico do Reino Unido permaneçam importantes, eles agora estão sendo aumentados por pontos fortes adicionais na inovação, tecnologia e eficiência.”

Como está o mercado das Lawtechs no Brasil ?

Apesar das Lawtechs serem uma realidade em muitos países, no Brasil a tecnologia está aos poucos ganhando espaço no mercado jurídico. De acordo com Clarissa Luz, advogada e fundadora do coletivo Nós8, o Brasil ainda está no início quando o assunto é tecnologia ou startups.

“O Brasil realmente não tem tantas soluções como lá fora. Nos Estados Unidos, advogados de grandes escritórios, mesmo tradicionais, já utilizam inteligência artificial em perícias judiciais, uma coisa que eu nunca vi no Brasil”.

Apesar do mercado parecer negativo, o Brasil ainda tem muito a explorar na área. Segundo o estudo Legal Mining Report realizado pela Distrito, foram mapeados cerca de 121 empresas voltadas para soluções tecnológicas no mercado jurídico.

Além de ser visto como um mercado com grandes perspectivas, já que atualmente existem cerca de 1 milhão de advogados no país, sendo um dos maiores do mundo com maior quantidade de advogados em relação a sua população.

O Brasil também é um dos países com o maior número de cursos de direito do mundo. São cerca de 1.174 cursos de graduação na área. Para comparar , nos Estados Unidos são apenas 280 e no Reino Unido 95.

Todas essas condições vêm revelando o Brasil como um terreno fértil para as novas empresas de Lawtech. Os dados não deixam dúvidas sobre as oportunidades que estão no horizonte dessas startups.

Tendências tecnológicas no setor

Apesar do movimento de inovações ser tradicionalmente liderado pelas startups, algumas grandes corporações estão acompanhando essa tendência. Em sua maioria, são grandes empresas de tecnologias que oferecem soluções inovadoras para garantir maior eficiência na prestação de serviços jurídicos.

A Associação Brasileira de Lawtechs e LegalTechs, AB2L, dividiu essas soluções tecnológicas em categorias. Veja a seguir quais são e entenda mais sobre cada uma delas:

1. Analytics e jurimetria

Os avanços da computação possibilitaram uma nova forma de encarar as normas e a sua aplicação que baseia-se em dados e, consequentemente, em estatísticas. Por isso, jurimetria pode ser genericamente definida como a estatística aplicada do Direito.

As empresas que trabalham com essa categoria geralmente fazem o trabalho de captação e compilação desses dados, e desenvolvem ferramentas que são capazes de prever a decisão judicial que será infligida sobre determinada sentença.

2. Automação e gestão de documentos

O sistema jurídico brasileiro possui muitas informações, contratos e petições. Pensando na automatização desses processos, algumas empresas estão investindo em softwares que trabalham na automação de documentos jurídicos e pela gestão do ciclo de vida de contratos e processos.

Documentos bem gerenciados podem ajudar a evitar horas perdidas em produtividade, tentando recuperar documentos que foram mal arquivados. Mais do que isso, toda a empresa se beneficia de um fluxo de informações que funciona com eficiência.

3. Compliance

O uso do compliance nas empresas e corporações tem como objetivo cumprir as normas legais, nacionais e internacionais, que são estabelecidas para determinada atividade, abrangendo todas as políticas, regras, controles internos e externos da organização.

Para isso, tem-se ferramentas que são usadas para ajudar no uso e disseminação dessas práticas, evitando que as empresas sofram com penalidades por irregularidades administrativas.

4. Conteúdo jurídico, educação e consultoria

São basicamente portais de informação, legislação, notícias e até empresas de consultoria que se dedicam a oferecer conteúdo aos usuários desenvolvidos de forma profissional. Um exemplo são portais de notícias que reportam sobre os acontecimentos no mundo jurídico.

Outro ramo que está em expansão são os materiais didáticos ofertados para estudo, seja para concursos, faculdade ou até mesmo para dúvidas diárias que os profissionais podem encontrar. Os materiais podem ser oferecidos por plataformas mais estruturadas, ou pelo método mais comum, que são canais no Youtube.

5. Extração e monitoramento de dado públicos

São empresas com foco no monitoramento e gestão das informações públicas que estão disponibilizadas em órgãos públicos para consultas online. A partir disso, a ideia é apresentar a juristas diferentes maneiras, e de acordo com as possibilidades novas oportunidades no mercado.

Um bom exemplo de Lawtech nisso no Brasil é o BipBop. Por meio da captura de dados da internet, o sistema facilita a busca e atualiza as informações de forma automática a partir da base de dados interna.

6. Gestão de escritórios e departamentos jurídicos

As startups que desenvolvem soluções nessa categoria tendem a ser as mais comuns. De acordo com o Legal Mining Report, hoje, no Brasil, essa é a área que mais possui startups no setor, correspondendo cerca de 23% do total de empresas.

Tratam-se de startups especializadas em oferecer ferramentas que auxiliam na gestão de rotina dos escritórios de advocacia e departamentos jurídicos. As atividades otimizadas vão desde a gestão financeira ao armazenamento unificado dos dados.

7. Inteligência artificial

Segundo uma pesquisa realizada pelo IDC, a previsão com gastos com inteligência artificial por empresas deve crescer de US$ 8 bilhões, em 2016, para US$ 47 bilhões, em 2020. Esse aumento equivale a quase 600% a mais em apenas quatro anos.

Como consequência disso, a inteligência artificial promete atingir cada vez mais áreas de conhecimento, e o direito é umas delas. Na área jurídica, ela é usada por empresas que trabalham com soluções voltadas para a rotina dos tribunais e do poder público.

Em alguns sistemas por exemplo, os softwares são programados para realizarem uma verificação das sentenças e órgãos detectados em todo o país. Os sistemas leem seu conteúdo e calculam a probabilidade de êxito com base no histórico de decisões de cada magistrado.

8. Redes de profissionais

As redes de profissionais são ferramentas, geralmente plataformas online, que ajudam na prospecção dos clientes. Elas formam redes que além de disseminar o conhecimento jurídico, permite que pessoas e empresas encontrem advogados de forma mais rápida em todo país.

No Brasil, uma das maiores redes é o JusBrasil, que visa conectar pessoas aos advogados e às informações, segundo o próprio site:

O JusBrasil auxilia na publicidade dos atos oficiais e jurídicos a partir do momento em que permite, com uma simples busca, que qualquer página de sua base de mais de 50 milhões de documentos seja facilmente encontrada, por qualquer cidadão brasileiro.

9. RegTech

É um outro exemplo de uma indústria que está sendo transformada rapidamente por novas plataformas. Regtech refere-se ao termo Regulatory Tecnology (Tecnologia Regulatória) e são empresas que auxiliam as outras a entrarem em conformidade com as leis.

A implantação desses sistemas são relevantes devido a dificuldade que existe em acompanhar as mudanças e ao alto custo gasto com governança nas empresas. Segundo o relatório da Boston Consulting Group, entre 2011 e 2017 ocorreram em média cerca de 200 alterações nas medidas regulatórias em nível global.

10. Resolução de conflitos online

Uma lei criada em 2015, regulamentou e deu forças para um novo mercado que surgia no setor jurídico, o de acordo e mediação online. A medida impactou diretamente no setor judiciário, aliviando um setor que lida com milhões de processos todos os dias.

As empresas funcionam a partir de plataformas online e buscam soluções para os conflitos sem que as pessoas precisem recorrer a justiça. Portanto, elas oferecem soluções tecnológicas que envolvem a mediação e a negociação de acordos.

Quais as vantagens de adotar a tecnologia nas empresas jurídicas?

É importante lembrar que as Lawtechs não substituem o trabalho de um advogado, elas atuam em conjunto com eles e em parceria com núcleos jurídicos de empresas para tornar a rotina profissional mais eficiente e produtiva.

Por isso, esse mercado segue em constante evolução e cada vez mais empresas e pessoas optam por serviços desse segmento. Assim como qualquer empresa que investe em tecnologia, as que investem direcionando os recursos para o setor jurídico conseguem inúmeras vantagens.

Como a agilidade na entrega de seu produto final, aumento da produtividade, networking, e a redução dos custos operacionais, já que com a automação dos processos as empresas ganham uma vantagem estratégica nas suas operações.

Em uma conferência realizada em São Paulo, a Lawtech Conference, foi apresentado o case de sucesso da Localiza Hertz, que viu uma oportunidade de otimizar sua área jurídica quando passava por dificuldades com a quantidade de processos em andamento que a empresa tinha.

A solução veio a partir de duas startups Lawtech, que aumentaram a produtividade da empresa a partir de um processo mais estratégico e reduziram em quase 50% o número de processos cíveis. Segundo Christiano Xavier, antigo head jurídico da Localiza:

A gente prevê que essa redução tenha gerado uma economia de alguns milhões para a empresa.

Uma outra vantagem é que as startups voltadas para soluções jurídicas, além de trazer melhorias na otimização do serviço de advocacia, reduz a burocracia quanto ao acesso à justiça para todos.

Como implementar inovação na sua empresa?

Dentro de uma empresa, alguns setores ainda são vistos como mais ultrapassados, e diante desse cenário, implantar uma cultura de inovação no departamento jurídico parece uma missão impossível, mas não é.

Já existem grandes empresas que que vem investindo pesado em tecnologia no departamento, desde aplicações mais simples como softwares que geram relatórios automáticos, ao uso das grandes tendências do mercado como a inteligência artificial.

Essa mudança de mindset vem acontecendo no setor jurídico por um simples motivo: o mundo mudou, e é essencial que as empresas participem dessas transformações.

Porém, implantar tecnologia não se resume na utilização de softwares, ou no uso de big data nas instituições. Para Bruno Feigelson, ex-presidente da AB2L, os profissionais do direito precisam acompanhar as tendências mesmo que não trabalhem diretamente com elas.

O mercado jurídico está sendo impactado de duas formas. Os advogados estão sendo desafiados a contribuir com essa mudança tecnológica e ela está sendo inserida cada vez mais no cotidiano deles.

Em uma pesquisa realizada pelo Law.com foram entrevistadas 176 pessoas que trabalham como advogados ou são donos de empresas de advocacia, das quais 44% disseram que consideram a inovação muito importante.

Implementar a cultura de inovação em uma empresa não significa automatizar todos os processos da noite para o dia, o ideal é iniciar com plataformas que resolvem pequenos problemas.

A medida que as soluções tecnológicas começarem a apresentar resultados práticos, como economia do tempo gasto nos serviços e redução dos custos, você verá que é possível investir mais nelas.

Conteúdo sobre Lawtechs

De fato, a tecnologia está, aos poucos, ganhando corpo no mercado jurídico. Separamos aqui algumas empresas que possuem estudos específicos do mercado das startups nesse setor, e qual a dinâmica que elas estão reproduzindo no mercado:

Conclusão

Em uma entrevista para Forbes, Richard Susskind, o autor mais citado do mundo sobre o futuro dos serviços jurídicos, deixou claro o quanto o sistema jurídico avançará nas próximas décadas graças a inovação provocada pela inteligência artificial e pelo big data.

Mesmo que atualmente a ênfase da tecnologia no sistema jurídico tenha sido apoiar advogados e sua equipe em alguns dos trabalhos que realizam, como e-mail, sistemas de contabilidade, processamento de texto e muito mais.

Já é possível observar os primeiros indícios positivos do uso da tecnologia para automatizar algumas tarefas mais complexas utilizando de tecnologias mais avançadas, como análise de documentos ou redação de documentos, essencialmente passando do back office para o front office.

Richard acredita que, na próxima década, advogados e máquinas trabalharão lado a lado, e eventualmente no sistema jurídico, portanto, o trabalho dos advogados mudará, porque a tecnologia está permitindo que as demandas sejam resolvidas de uma nova maneira.

Links para Leitura

Eduarda Terra

Especialista de Marketing na GoBacklog, uma empresa especializada no desenvolvimento de soluções digitais que vem mudando a forma de se criar negócios digitais de sucesso. Estudante de Economia na UFJF.
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