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Tudo dá sempre certo. Quando não der, veja logo como você pode aprender com isso.

Conte um pouco sobre você e sua trajetória profissional

Eu sou mineira, filha da terra. Sou de Governador Valadares mesmo, nascida e criada. Meus avós migraram de Belo Horizonte para cá, na verdade, e desde então minha família se estabeleceu aqui.

Fiz curso técnico de Administração em uma escola de formação do SEBRAE, que existia na época. Era um colégio com um perfil um pouco diferente dos outros, já que possuíamos o ensino regular do Ensino Médio e o curso técnico em Administração.

Mas o foco dessa escola nunca foi de formar alunos somente para ingressarem na faculdade. Eles nos estimulavam a pensar fora da caixa e nos mostravam que o empreendedorismo era o que movimentava realmente. Então tinha vários filhos de empresários da cidade e pessoas que se interessam pela temática.

Na verdade, no Ensino Fundamental, quando me apresentaram a possibilidade de estudar lá, eu já me apaixonei. Comunicação, Marketing e Administração sempre foram os assuntos que eu mais gostei, embora eu goste mais da área estratégica do que exata da Administração, eu sabia que iria ter que enfrentar essa parte também.

Quando fiz o curso técnico, me apaixonei e tive certeza que queria fazer aquilo. Queria estudar ou Administração ou Marketing e Publicidade, e acabei optando por Administração. Fiquei aqui, me formei aqui e na faculdade mesmo já queria fazer uma pós graduação.

Escolhi fazer Gestão de Pessoas com ênfase em Estratégia Organizacional, porque minha visão é de que, sempre, em qualquer circunstância, tanto para movimentar os negócios quanto na minha carreira profissional, eu teria que lidar com pessoas.

Aprender a gerenciar e conduzir pessoas, era o que eu achava que seria o meu principal diferencial competitivo, então já emendei a faculdade com pós graduação. Sou muito acelerada e viver na correria é uma coisa que me dá prazer.

Na época em que terminei a pós graduação, eu já estava trabalhando na mesma empresa em que eu fazia estágio anteriormente. Fiz estágio, na época do curso técnico de Administração, na CEMIG, e continuei lá com um contrato depois, durante 4 anos. Então, a minha formação, desde a parte técnica até a graduação, foi trabalhando dentro da CEMIG.

Lá eu aprendi muito sobre procedimento e principalmente sobre Gestão de Qualidade. Mas depois saí para fazer estágio em um banco, e acabei não me efetivando lá. Foi um momento muito doído da minha carreira, porque eu estava em um crescimento exponencial e alguém me “brecou” (interrompeu). “Não vai ser aqui”. E eu tive que ter um pouco mais de capacidade de resiliência para poder entender que eu precisava voltar algumas casas.

Depois disso, comecei a trabalhar com um professor. Na época ele era gestor de uma franquia aqui na cidade, e me convidou para trabalhar com ele como secretária executiva de algumas ações que eles possuíam lá. E esse foi o meu primeiro contato com o Marketing de fato, porque estávamos trabalhando juntos, e eu pude crescer dentro da empresa.

Um dia ele trouxe a proposta de abrir uma agência de Marketing Digital com dois infoprodutos, e me chamou para ajudar tanto na empresa quanto na produção dos produtos. Foi neste momento que eu me apaixonei. Aprendi sobre automação, funil, montar conteúdo e todo esse universo que as mídias sociais proporcionam para gente de visibilidade.

Porém esse cenário era ainda um pouco difícil, porque o Marketing Digital estava começando a despontar. Há cerca de 6 anos atrás ele começava a crescer no Brasil, principalmente com os infoprodutos, e mostrar para o consumidor que ele podia confiar em algo que ele não estava vendo, que ele nunca havia comprado e que ele não ia pegar, era um grande desafio, mas foi muito bom.

E nesse meio tempo, além de trabalhar na franquia e conciliar com o Marketing Digital da empresa, eu recebi uma oportunidade de trabalhar como professora. Esse foi o meu primeiro contato com sala de aula. Nunca tive muita dificuldade para falar, lá em casa o pessoal diz que eu sou pra frente mesmo, que eu falo muito. E então eu comecei a lecionar para um curso profissionalizante no Senac em outra cidade, em Periquito.

Eu precisava viajar todos os dias, 40 km para ir e 40 km para voltar. Essa era a minha rotina, trabalhar o dia inteiro, ir para outra cidade à noite, dava aulas e voltava, e aos finais de semana tinha as reuniões para analisar onde poderíamos encaixar a empresa de Marketing Digital. E foi muito bom, porque eu desenvolvi a habilidade de gerenciar meu tempo e de priorizar minhas tarefas.

Depois disso, escolhi abrir mão da carreira na empresa, pois eu havia sido convidada para lecionar em uma universidade da cidade. Isso foi mais ou menos em 2013, então, este ano eu faço 5 anos de docência em graduação.

Enquanto professora universitária, como enxerga a necessidade de se incentivar a inovação e empreendedorismo no campo acadêmico? Que tipo de iniciativas do meio acadêmico podem impactar o cenário mercadológico durante e após a formação dos alunos?

Eu acredito que ensinar inovação e empreendedorismo é de fato a chave para alavancarmos todos os setores de desenvolvimento do nosso país. A partir daí, as pessoas irão conseguir perceber que são de fato protagonistas do que vivem.

Não precisamos mais ter essa concepção de que somos apenas espectadores de tudo o que está acontecendo e que vamos consumir alguma coisa. Somos produtores, economicamente e politicamente falando. Compreender o que é inovação é muito importante para pensar fora da caixa. Para entender que o que está posto e o que pode ser reinventado.

É melhor que possamos contribuir para reinvenção, do que simplesmente esperar que ela chegue até nós, que é, mais ou menos, o que aconteceu com os nossos pais e avós, no caráter tecnológico. Conciliar teoria e prática é fundamental. Em algumas áreas é muito difícil dissociar isso, é muito difícil apenas ensinar o conceito, sem trazer o aluno para pensar na aplicabilidade dessa ideia.

É necessário que nós repensemos a nossa didática de ensino, para trazer essa vivência para sala de aula, e que estejamos mais próximos do mercado, dos empresários, para entender como essa ciência se aplica e como ela pode contribuir. À partir disso, eu acho que essa lacuna entre teoria e prática, vai ser diminuída.

A chave é trazer um pouco mais de técnico para a sala de aula e levar um pouco mais de ciência pro dia a dia. É entender que existe um porquê daquilo ser organizado como é. A ciência precisa acompanhar toda a transformação que o mundo e sociedade passam. Práticas como estudo de caso, relações próximas de trazer o empresário para falar com os alunos e colocá-los diante dessa situação, é uma prática importante. Além disso, contar com às atividades extraclasses.

Nós temos vários eventos que têm formatos super diferentes, totalmente de imersão. Os alunos se colocam diante de uma realidade um pouco mais próxima do mercado. Acho que essas são algumas saídas para podermos aliar inovação a algo prático e efetivo.

Um levantamento mundial realizado pelo GEM e o SEBRAE, revelou que a taxa de empreendedorismo feminino entre os novos empreendedores é de 15,4%, já a masculina é de 12,6%. A mesma pesquisa concluiu que mais da metade dos novos negócios abertos desde 2016 foram fundados por mulheres. Essa pesquisa reflete o que você tem visto de perto, com suas alunas?

Eu acho que o empreendedorismo têm estado muito mais na veia feminina nos últimos tempos. O homem é mais ligado a abrir negócios e criar empresas, e as mulheres estão mais ligadas em serem empreendedoras.

A diferença básica é que o empreendedor vê uma oportunidade e tenta levar algo ao público de uma forma distinta. Não é só um diferencial competitivo, e nem só agregar um pequeno valor ao produto e sentir que já possui um diferencial no mercado. Empreender está em uma nova forma de entregar um produto para o cliente.

Eu percebo isso nas iniciativas das minhas alunas. Já têm algumas que possuem negócios consolidados e em crescimento, mas eu vejo isso, principalmente, quando elas enxergam uma oportunidade. Às vezes de fazer um bombom ou um bolo para vender no corredor da faculdade.O homem está mais ligado em comprar algo que já está pronto e revender.

Então as mulheres estão muito mais conectadas a criação e a inovação, enquanto os homens estão mais ligados a reproduzir modelos que já foram existentes.

É lógico que esse cenario nacional de mulheres no empreendedorismo, e o empreendedorismo feminino sendo uma causa também defendida por empreendedores masculinos, tem dado mais coragem e força para que, o quanto antes, essas meninas comecem a empreender.

Elas estão sentindo seguras de que é possível investirem em uma iniciativa própria e serem protagonistas da sua história.

Em 2018, você fez parte do projeto “Coleta Cidadã”, que ficou em segundo lugar no evento “Startup Weekend – Cidades Inteligentes”. Que nichos de mercado você diria que têm mais potencial inexplorado na região e como utilizar esse potencial para desenvolver um negócio bem sucedido?

Eu enxergo que os dois nichos principais, que precisam ser desenvolvidos e têm diversas oportunidades na nossa região, são sim os que estão ligados à sustentabilidade. Nós precisamos repensar várias práticas de logística reversa, da própria coleta seletiva, do reaproveitamento do lixo, e entender que todos esses itens não são descartáveis.

Na verdade, eles são insumos. Eles podem ser matérias primas de outros processos, e o não aproveitamento desses elementos faz com que tenhamos um desperdício de dinheiro muito grande.

A nossa cidade tem muito desenvolvimento para o setor de construção civil e poucas iniciativas de reaproveitamento dos materiais que ele inutiliza. Então, eu acredito que esse é um nicho que realmente precisa de novos olhares.

Outro nicho que pode ser explorado é o que auxilia os empresários e as empresas a criarem relacionamentos com o seu cliente. A nossa cidade e a nossa região, vive essencialmente do comércio, e nós temos ainda muitos vendedores. As empresas continuam muito preocupadas em vender, e ainda enxergam os clientes chegando dentro de suas lojas com um cifrão na testa. Porém, elas esquecem de criar relacionamentos, e é esse o ponto em que faz de fato o cliente: entrar, comprar, voltar e indicar.

E isso passa, não só pela qualidade do atendimento, mas por toda proposta e oferta de valor que aquela empresa faz. Por isso a gente tem aí uma lacuna, que precisa de iniciativas. Talvez sim da relação e da melhoria dos atendimentos, mas talvez, também de ferramentas que facilitem, e faça com que esses empresários consigam entregar esse valor, para criar esse relacionamento com o cliente de maneira mais fácil.

Tendo em vista que a maioria dos empresários da nossa cidade não tem uma estrutura organizacional que consiga ter um setor específico para pensar sobre isso ou um setor que pesquise sobre os seus clientes. Então, eu acho que nós precisamos de ferramentas e de prestadores de serviços que liguem essas pessoas de maneira mais eficiente.

Recentemente, você concluiu o Marketing Executive Program pela Universidade de Ohio. Que diferenças você pôde perceber entre o modelo acadêmico americano e o brasileiro em termos da formação da visão de negócio do futuro profissional?

Existem muitas diferenças entre o modo com o qual gente estuda lá fora e estuda aqui dentro. Mas a grande diferença mesmo é que lá fora a gente tem algumas caracterizações que na nossa construção social aqui são completamente diferentes. Primeiro de que o professor é detentor de todo conhecimento, e ele não é. Segundo de que o aluno está ali para receber conhecimento, e lá fora nós não estamos sentados numa cadeira para receber conhecimento. E terceiro, que uma instituição de ensino é a única responsável pela minha formação.

Lá fora nós somos muito mais pró-ativos. O professor é visto por lá, como uma pessoa que tem uma bagagem muito grande, e que ele vai ensinar um pouco sobre a trajetória dele e sou eu quem tenho que correr atrás, sou eu quem preciso me esforçar e me antecipar inclusive, para tudo aquilo que eu vou viver no dia a dia em sala de aula.

Lá fora nós estávamos fazendo um curso executivo, e eram muitos brasileiros, todos já adultos e trabalhando, e ainda tínhamos dever de casa, e ai de nós se não fizéssemos o nosso dever de casa. Então esse protagonismo é muito forte lá fora. E essa visão em que o professor está em um pedestal, como detentor de conhecimento, já não existe mais.

E isso é muito bom, pois facilita com que o professor esteja mais à vontade para compartilhar suas experiências, e dizer: “olha, é isso que eu sei, essa é a minha bagagem, eu não sei tudo”. Aqui a gente chega em sala de aula esperando que o professor saiba de tudo, domine todas as teorias e domine todas as técnicas daquela área, e se ele não souber responder uma só pergunta eu acho que ele não é tão bom assim, que não é capaz o suficiente, e já começo a me questionar quem o colocou ali, que não tenha chegado por mérito próprio.

E talvez isso seja que fez a minha trajetória ser um pouco diferente. Lá em casa, assim como a minha vó dizia que eu falava demais, o meu avô também comentava que eu era muito “perguntante”, e eu sempre fui aquela aluna que depois de apresentar um trabalho, independente da minha nota, chegava para o professor e dizia assim: “você pode me dar um feedback, o que eu preciso melhorar na minha apresentação?”

Eu não estava muito preocupada em qual seria a minha nota, lógico que passar era importante, eu não queria ficar devendo matéria, mas eu queria saber como eu poderia melhorar para que eu pudesse entregar alguma coisa melhor para o meu cliente, que é o meu empregador. Eu sou o meu próprio negócio, então essa é a diferença, e ela é muito vista lá fora. E além disso, a conciliação das práticas de ensino que envolvam o aluno como atores desse estudo.

Quando a gente está estudando negócios lá fora, fazer visitas técnicas é algo rotineiro, e as empresas nos recebem muito bem. Elas não têm medo de abrir a suas informações para nós, ponto que representa uma dificuldade por aqui. É muito difícil que a gente consiga agendar uma visita técnica, que tenha alguém disponível para explicar como funciona aquilo, porque logo se pensa em teoria da conspiração, que alguém vai entender logo o meu trabalho e vai fazer melhor que o meu. Lá fora eles não estão preocupados com isso.

Outra coisa que eu percebi e que foi uma luta pessoal muito grande, inclusive, é que o conceito de falha lá já é absolvido muito diferente daqui. Aqui a gente acha que falhar e errar é sinônimo de insucesso, e lá fora não, lá a gente está na academia, a gente está nos nossos ambientes para errar mesmo. E que bom que a gente está errando, porque estamos também aprendendo como não fazer, e que a gente erre rápido.

Esse é o conceito do fail-fast: errar rápido para já de uma vez aprender como consertar esse erro. E isso realmente faz diferença, porque enquanto nós estamos preocupados muito tempo em não falhar, a gente permanece muito tempo errando, existe então uma paixão muito maior. Lá não, a gente falha, falou e não se fale mais nisso. Então é mais ou menos esse o conceito deles.

O que a Jeanine de hoje diria pra Jeanine de 10 anos atrás?

Então, eu acho que diria “menina, fique tranquila. Vai dar tudo certo. Não demore muito tempo para desenvolver seu lado moral e espiritual. Eles são a base para que você faça as melhores escolhas. E fique menos ansiosa.”

No final, dá tudo super certo! Sempre dá certo e quando não deu certo, pense logo em como você pode aprender com essa situação. Eu acho que é isso o que eu diria a mim mesma a 10 anos atrás.

“Mas só continue. Só vai, porque você está chegando”.

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Ana Antunes

Especialista de Marketing na GoBacklog, uma empresa especializada no desenvolvimento de soluções digitais que vem mudando a forma de se criar negócios digitais de sucesso. Estudante de Economia na UFJF, apaixonada por inovação e tecnologia.
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