Todos os dias surgem novas startups, ou seja, empresas que aplicam tecnologias disruptivas em novos modelos de negócio para sanar gargalos existentes não só no mercado, mas também na sociedade. A partir dessa necessidade, surgiram as GovTechs.

Os clientes das Govtechs são os governos, que podem se beneficiar dos serviços dessas startups para a implementação de políticas públicas, engajamento da população, divulgação de informações, canais alternativos de contato entre muitas outras coisas.

Como qualquer startup, as Govtechs podem atuar em diversas frentes dentro de seu nicho e seguem o modelo enxuto para acelerar seu crescimento, sendo pioneiras quando o assunto é tecnologia.

O que é GovTech?

GovTech, pode ser definido como a junção de tecnologia e soluções inovadoras que os departamentos do governo usam para fazer seu trabalho interno ou fornecer serviços aos seus aos cidadãos. E também, por meio de parcerias entre o setor público e privado para gerar soluções que melhoram a performance dos serviços prestados do governo.

Panorama de mercado das GovTechs

Como já mencionado, no caso das GovTechs, o cliente é o governo, que pretende alcançar seu objetivo de implementar suas políticas públicas aos cidadãos.

Então, não se pensa apenas em atingir o maior número de consumidores, mas melhorar a vida do maior número possível de cidadãos, com a existência de contrapartidas que viabilizem o projeto e atraiam a iniciativa privada.

Em 2018, foi publicado o relatório The European 150 – The startups driving Europe’s GovTech, no qual foram listadas as 150 startups europeias que estavam revolucionando os governos com tecnologia.

Alguns serviços fornecidos pelas GovTechs da lista eram plataformas que ofereciam troca de informações entre servidores públicos do mundo inteiro, novos canais de emergências que recebem mensagens de voz e imagens, plataformas para que os cidadãos possam fazer agendamento para usar serviços públicos e até sistemas que monitoram em tempo real o que acontece nas rodovias.

Um estudo da empresa de consultoria PiceWaterhouseCoopers sobre o cenário das GovTechs no Reino Unido aponta um crescimento de investimento nesse modelo de negócio. O Venture Capital subiu 55% de 2013 a 2015, e em 2017 chegou a 198%.

Isso porque as GovTechs acabam trabalhando em muitos contratos menores dos governos que não são interessantes para grandes corporações, mas se encaixam como uma luva nesse modelo moderno e reduzido de empresa.

Já no Brasil, em decorrência das sérias restrições fiscais que vivemos há anos, e que só deve se acentuar nos próximos meses, a adoção de tecnologias pelos governos pode também ser um investimento em prol da eficiência e economia de recursos públicos.

Segundo o relatório Estratégia Brasileira para a Transformação Digital, publicado em 2018, o custo do atendimento online é muito menor em comparação com o atendimento presencial. Enquanto o atendimento presencial tem um custo médio de R$ 43,68, o atendimento online pode chegar a R$ 1,20, ou seja, uma economia de mais de 97% em recursos públicos por transação.

O cenário é de avanços, com experiências sendo desenvolvidas por estados e municípios do país, mas ainda temos muito o que fazer. O Brasil ocupa a 44ª posição no ranking do Índice de Governo Digital das Nações Unidas (EGDI) – considerando o conjunto de 193 países participantes.

O relatório do GovTech Brasil, diz que o futuro que eles esperam, é um futuro em que a sociedade:

  • Veja como uma experiência positiva interagir com o governo
  • Consiga se comunicar com o governo e participar da vida pública, de forma simples e rápida, através de qualquer canal
  • Confie que os recursos públicos são utilizados com eficiência, e haja total transparência nessas informações
  • Consiga medir com precisão a performance do governo e qualidade de seus serviços
  • Confie na proteção e privacidade de todos os seus dados

Oportunidades e desafios da atuação no setor

Em maio de 2020, foi realizado o primeiro voo espacial comercial tripulado com destino à Estação Espacial Internacional. Esse feito histórico, deu início a um período de atuação comercial no espaço, pois o projeto é fruto de uma parceria público-privada entre a SpaceX e a Nasa.

O que chama atenção, é o exemplo de como a relação público-privada pode ser um caminho muito rico para a construção de soluções que sejam tecnológicas e inovadoras.

E mais importante, esse arranjo pode se estender para outros desafios do setor público, sejam eles para soluções mais aprimoradas como a construção de foguetes ou mais simples, como a criação de um aplicativo que permita que os pais acompanhem o desempenho escolar do filho.

No entanto, para alcançar essa parceria perfeita entre governo e setor privado há muito a ser trabalhado. A legislação, principalmente, precisa se modernizar para que a burocracia seja superada e as startups acessem as licitações.

Para que assim, as startups possam conhecer, de fato, a realidade onde irão atuar. Pois além de criarem uma boa proposta de valor, elas precisam avaliar se existe infraestrutura básica, entre outras demandas, para que a implementação das startups seja viável.

Outra questão que precisa ser levada em consideração são os fundos de investimento, os quais têm regras de compliance que impedem as startups investidas por eles de trabalharem para o setor público.

Também é preciso saber como as startups vão apresentar suas propostas de serviços ao setor público. Pois além da licitação, existe a Lei da Inovação, que incentiva o setor público a formar alianças que busquem a inovação e a difusão da tecnologia com outros setores da sociedade, como academias, empreendedores, empresas e centros de tecnologia.

Áreas que podem ser exploradas pelas GovTechs

De acordo com a Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, o envolvimento do governo, nas suas três esferas, é primordial para potencializar e orientar o campo de atuação das startups. Experiências internacionais priorizam três papéis para o poder público:

  • Regulador de mecanismos financeiros de impacto
  • Fomentador de temas, modelos e organizações indutoras
  • Comprador de produtos e serviços originários de negócios de impacto

Embora o cenário seja complexo para quem não está acostumado, as soluções criadas para o contexto GovTech tem a chance de impactar diretamente a vida de diversos cidadãos, nas mais diferentes áreas.

O BrazilLAB, principal hub de inovação que conecta startups ao poder público, destaca cinco áreas a serem exploradas por empreendedores e que podem gerar grande impacto nesse contexto de transformação digital.

Digitalização dos processos

Para além dos benefícios financeiros, a transformação digital traz inúmeros resultados para a qualidade dos serviços e para ampliar a confiança de cidadãos na atuação governamental.

O Brasil tem 107,9 milhões de usuários de Internet, dos quais 61% (aproximadamente 65,8 milhões de pessoas) procuraram informações de governo ou realizam serviços públicos online.

Segundo dados do relatório Estratégia Brasileira para a Transformação Digital, a digitalização de serviços pode trazer ao Brasil um aumento de 5,7% do PIB e economizar até 97% dos custos de atendimento.

Nos custos de atendimento online, a economia pode representar para o governo brasileiro de R$ 663 milhões ao ano. Para a sociedade como um todo, a economia alcança a casa de R$ 5,6 bilhões ao ano. Ou seja, uma economia total de R$ 6,3 bilhões ao ano.

Dessa forma, soluções que priorizem a automatização e digitalização de processos se fazem necessárias em todas, Executivo, Legislativo e Judiciário, e têm grandes chances de aplicabilidade.

Transparência

A sociedade está passando por uma grande mudança na sua relação com a gestão pública, e as lideranças do setor precisam saber lidar com as novas diretrizes de forma eficaz.

Entre as principais necessidades estão a redução da burocracia, aperfeiçoamento de gestão de pessoas e principalmente, a ampliação da transparência das ações do governo.

Com isso, os governantes buscam cada vez mais uma interação com as pessoas, tornando uma experiência positiva e que a participação na vida pública seja mais simples e rápida, ao mesmo tempo em que quer ter confiança de que os recursos públicos são utilizados com eficiência. Por isso, ações que privilegiem a transparência de dados são fundamentais.

Hoje, por exemplo, o Portal da Transparência usado pelo governo federal no Brasil, é um site de acesso livre, no qual o cidadão pode encontrar informações sobre como o dinheiro público é utilizado, além de se informar sobre assuntos relacionados à gestão pública do Brasil.

Smart Cities

No Brasil, mais de 80% da população brasileira vive em cidades, e os números tendem a aumentar. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê que em 2050 a população mundial chegará a 9 bilhões de habitantes, dos quais 70% morarão em centros urbanos.

Considerando que as cidades já consomem mais de 75% da geração de energia mundial e geram 80% das emissões de gases de efeito estufa (GEE), muitas cidades apostaram em se reciclar estrategicamente se transformar digitalmente, para darem resposta a alguns dos grandes desafios globais.

De acordo com o Smart City Index, elaborado em 2017 pela consultoria Juniper Research e pelo gigante tecnológico Intel, Singapura, lidera o ranking das cidades mais inteligentes do mundo.

Ela instalou sistemas como controle de tráfego e videovigilância inteligente, ou o Smart Health TeleRehab, um programa graças ao qual todos os habitantes da terceira idade têm dispositivos especiais para fazer consultas médicas a qualquer momento.

Dessa forma, tecnologias para apoiar o uso estratégico de recursos, gerar economia, desenvolvimento e qualidade de vida nas cidades são imprescindíveis, e ganham cada vez mais espaço, inclusive, nas esferas públicas.

Sociedade 5.0

Segundo entrevistas divulgadas pela InfoMoney, as três profissões mais procuradas no futuro, estarão diretamente ligadas a tecnologia.

O desafio da transformação digital no Brasil passa pela educação e formação das competências necessárias para interagir com a tecnologia, tanto para consumi-la, quanto para produzi-la.

Pensar em soluções que priorizem habilidades para uma sociedade 5.0, e que deixe as pessoas mais familiarizadas com a tecnologia deve ser a prioridade da agenda de desenvolvimento do Governo nos próximos anos.

Gestão de pessoas

A liderança tem um papel fundamental no que se refere à visão de longo prazo, enquanto a governança determina a capacidade de concretizar tal visão.

Do ponto de vista tecnológico, a transformação digital de um país pode ser feita em apenas alguns meses. No entanto, do ponto de vista político, pode levar anos de articulação.

Por isso é necessário que se criem agendas claras e que se determinem as atribuições de cada agente para que seja possível garantir que funcionários públicos sintam-se empoderados, e não ameaçados pelas mudanças.

É necessário incentivar o avanço de ferramentas e métodos que busquem a qualificação e desenvolvimento desses profissionais.

Conclusão

Como foi possível observar, as GovTechs ajudam a modernizar, automatizar e direcionar recursos para as funções mais estratégicas e complexas. Abrindo espaço para que a parceria entre o setor privado e público possa ocorrer com mais frequência.

As soluções tecnológicas são essenciais para transformar digitalmente o setor público, garantindo que qualquer interação com o governo possa ocorrer de forma rápida, segura e eficaz, através dos canais mais convenientes para quem os utiliza.

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Eduarda Terra

Especialista de Marketing na GoBacklog, uma empresa especializada no desenvolvimento de soluções digitais que vem mudando a forma de se criar negócios digitais de sucesso. Estudante de Economia na UFJF.